
Com frequência, me perguntam: como se define o Butoh? Gosto de responder com outra pergunta: como se define a natureza humana? Dança criada ao final da década de 1950 por Kazuo Ohno e Tatsumi Hijikata, o Butoh está em eterna metamorfose, seja ela a da carne ou da alma, daí a necessidade de desnudar a alma humana e o universo único que cada pessoa traz dentro de si.
Enquanto preparamos o nosso mais novo espetáculo, Caminho de Dentro, eu e o dançarino Hiroshi Nishiyama completamos, agora em 2026, dez anos nos palcos com o Butoh e não temos dúvidas de que seguimos em busca das metamorfoses que essa arte nos provoca.
Olhando para nossa trajetória até aqui, lembro imediatamente do ano de 1996, quando estava nos Estados Unidos e li no The New York Times que Kazuo Ohno se apresentaria na cidade. Ao chegar lá, sem saber muito, vi um dançarino de 91 anos de idade em cena. E, naquele corpo de 91 anos, encontrei a minha avó, um feto, um homem… Fui tocada de tal forma que pensei: quero dançar isso que acabei de ver hoje, quero fazer dessa dança a minha vida.
Não por acaso, o butoh foi fundamental para meu renascimento pessoal. Quando testemunhei a dança de Kazuo Ohno em Nova York, tentava entender o meu próprio corpo. Fui para lá aos 19 anos, motivada pela minha professora de dança moderna, Cecy Frank, em busca de aprimoramento na técnica de Martha Graham. Foi uma experiência intensa. Vi dançarinos profissionais e potentes, mas também acumulei o peso das expectativas, a distância da família, a depressão e, por fim, um colapso total que resultou na quebra das minhas vértebras e tíbia.
Desaguei. E, a partir dali, começou o processo de descobrir qual era o corpo que se erguia do nada. Durante dois meses, foram praticamente apenas respirações e sonhos com a dança. O médico não sabia se eu voltaria a caminhar. Lentamente, o corpo começou a se mover. Seguiram-se nove meses de espera e reaprendizados diários.
A dança de Kazuo Ohno ressignificou tudo isso: chorei do início ao fim vendo aquele corpo marcado pelo tempo e por rastros de memória. São vulnerabilidades e paradoxos que o Butoh incorpora de forma muito natural, afinal, como Ohno disse ao entrar em cena: “Viver é dançar. Desde o início, desde o momento em que eu acordo, até o momento em que vou para o palco, tudo é preparação”.
Um breve contexto histórico se faz necessário, pois o Butoh nasce no Japão logo após a Segunda Guerra Mundial e a ocupação dos Estados Unidos. Nele, corpos tentam descobrir sua identidade em meio a destruição. Certa vez, perguntei a Hiroshi Nishiyama como o povo japonês se reergueu de tamanha devastação, ao que ele respondeu: “Ana, as pessoas olhavam à volta e as flores continuavam a brotar, as árvores continuavam a crescer. Como dizer não a tudo isso?”.
Em 2012, voltei ao Brasil após vinte e três anos vivendo no exterior. Logo depois, em 2015, decidi voar para o centro da terra – o Japão – em busca de preparação com Yoshito Ohno, também dançarino de Butoh e que dava sequência ao legado do pai Kazuo, falecido em 2010 aos 103 anos. Yoshito Ohno se tornou meu mestre de dança e vida. Sua dança e seus ensinamentos norteiam meu caminho.
Com Yoshito sensei, aprendi que, no Butoh, cada dançarino se revela como uma flor, como a natureza e seus ciclos. É preciso escutar a sinfonia da pedra e presenciar as flores que dela brotam. É fundamental transpor o corpo não por variações de movimentos, mas na relação com o mundo ao redor, inclusive com suas tragédias.
Foi por meio de Yoshito sensei e da generosa família Ohno que conheci Hiroshi Nishiyama, que viria a se tornar meu parceiro de vida e arte. No Kazuo Ohno Dance Studio, criamos, em 2016, nosso primeiro espetáculo: Caminhos Pelos Quais, que estreou naquele mesmo ano, em Porto Alegre, no Instituto Ling, marcando nosso desejo de difundir o Butoh.
Não paramos mais: Nishiyama se mudou para o Brasil e, mesmo sem a presença física do nosso mestre Yoshito Ohno, que deixou esse mundo em 2020, voltamos quase que anualmente ao Kazuo Ohno Dance Studio, em Kamihoshikawa. Sabemos que a raiz de tudo está lá e que viagens e lugares são minados de memória, e de experiências. Nós precisamos desse contato. Chegar ao Japão é alimento – de arte, de sensibilidade, de vida.
Outros cinco espetáculos tomaram forma desde 2016: A Música Não Tocada, O Sussurrar da Cigarra, Dezoito Estações de Outono, Mares e Nuvens Flutuantes e, agora, Caminho de Dentro. Todos eles traduziram, cada um à sua maneira, nossas relações com o mundo e suas inquietudes, belezas e turbulências. Somos apenas uma dupla em cena, mas sempre amparados por uma equipe talentosa e que, assim como nós, acredita na importância de uma dança como o Butoh ganhar protagonismo nesse mundo ocidental cada vez mais pragmático, acelerado e desconectado de suas origens.
Entre os elementos que nossos espetáculos têm em comum, incorporamos sempre um conceito célebre na cultura japonesa: o Ma. É por meio dele que o Butoh se instaura – nesse espaço vazio, nesse intervalo de tempo. Tamanho esvaziar se revela importante porque é quando criamos as condições para que kami (o sagrado, as forças vitais na natureza, segundo o Xintoísmo) possa estar presente. Nosso corpo não é uma entidade isolada, por assim dizer. Podemos – e devemos – estabelecer relação com algo, nem que seja com o ar.
Durante dez anos levando o Butoh ao público, fizemos da nossa vida esse compromisso de passar adiante todos os tesouros em forma de ensinamentos que recebemos dos nossos mestres. São palavras que nos sustentam, que transformam o mundo e que, por meio da dança, tocam as pessoas que encontramos. A cada solo trilhado, ecoa a voz de Yoshito Ohno: “Cada ser humano é uma obra de arte, por isso a importância de cultivar a vida. O Butoh é o encontro da essência de cada um com a sua existência. ‘Treasure your life’”. Assim seguimos. Um passo de cada vez.
Ana Medeiros é dançarina de butoh com formação em dança moderna na Martha Graham School of Contemporary Dance. Vencedora do Prêmio Açorianos de Dança na categoria Intérprete Destaque pelo espetáculo Mares e Nuvens Flutuantes. Viveu por 23 em Nova York onde dançou com Mila Parish and Dancers, Jean Erdman Theater of Dance, Aria Edry, e Mary Miller Dance Company. Em 1992, começa a coreografar e apresentar seus trabalhos em espaços como P.S.122, Merce Cunningham Studio, 92 Street Y, Judson Church, e na França, Holanda e Brasil. Em 2014, participa do ImpulsTanz, festival em Viena onde estudou Butoh com Ko Murobushi. Em 2015, inicia seu projeto de pesquisa e estudo do Butoh com Yoshito Ohno no Kazuo Ohno Dance Studio, Japão. Hoje o seu trabalho é voltado à prática desta vertente.