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Crítica de Antônio Hohlfeldt para a performance de “Mares e Nuvens Flutuantes” no Palco Giratório

01/06/2026

Foto de Fábio Zambom

Uma das atrações trazidas pelo Palco Giratório deste ano foi o espetáculo “Mares e nuvens flutuantes”, com os bailarinos Ana Medeiros e Hiroshi Nishiyama. Por uma questão de saúde de Ana Medeiros, a performance da dupla ficou transformada no solo de Nishiyama. Eu quase escrevia “ficou reduzida”, mas isso seria um desrespeito ao bailarino, porque ele nos brindou com uma belíssima performance que, sem ser o espetáculo anunciado, foi um outro espetáculo, igualmente admirável.

Anotemos estas questões iniciais para bem realizar um registro justo sobre o trabalho assistido: “Mares e nuvens flutuantes” se inscreve na recente tradição da dança butô (ou butoh), desenvolvida no Japão a partir do final da II Grande Guerra, mesclando a tradição oriental com as então novas pesquisas ocidentais, em especial do expressionismo. Os historiadores explicam que os traumas causados pelas explosões de Hiroscima e de Nagazaki, somados à preocupação da crescente perda de identidade dos japoneses, fizeram com que Tatsumi Hijikata e Kazuo Ohno, que desenvolveram esta técnica e este tipo de performance. “Butoh” significa, na língua japonesa, “dança das trevas” e se caracteriza por movimentos extremamente lentos, com coreografias mais vinculadas ao solo do que aéreas, minimalistas. O bailarino, em geral, utiliza uma pintura branca sobre todo o corpo ou as partes do corpo expostas (fora dos figurinos que serão, ou brancos, ou pretos). No Brasil, o butô chegou através do bailarino Tadashi Endo e de Emilie Sugai. No caso do espetáculo a que assistimos, Ana Medeiros decidiu estudar no Japão em 2015, quando conheceu Hiroshi Nishiyama, hoje seu companheiro. O casal formado deslocou-se para Porto Alegre, a partir de 2018, e aqui vêm atuando em diferentes produções de dança butô, das quais “Mares e nuvens flutuantes” é uma delas.

O que desde logo chama a atenção para esta peça é seu título, porque contradiz frontalmente a própria origem da dança, cujas coreografias estão mais próximas do solo,como se escreveu acima: aqui, a referência é exatamente contrária, porque fala de mares (extremamente volúveis) e nuvens, aliás, muito bem visualizadas na cenografia de Rodrigo Shalako, um grande quadrado branco, suspenso, cujo tecido organizado em pregas, nos lembra de imediato o movimento das marés ou a fluidez das nuvens. De fato, a obra foi inspirada na visão, desde a praia, do mar e de sua infinitude, do mesmo modo que o movimento das nuvens. Ou seja, pode-se dizer que a obra propõe-se a ultrapassar os próprios princípios desta dança, enquanto sua inspiração primeira, para falar de algo mais positivo e menos cético.

Enquanto muitas danças do mundo se baseiam na técnica, o fundamento do butô reside na imagética, no ambiente virtual dos mundos interno e externo do corpo, e nas texturas e emoções que o compõem: a dança nasce a partir da busca sobre como o corpo deve existir e se mover dentro desse ambiente. A essência do butô não é a beleza ou a técnica do corpo no sentido estético ocidental, mas a expressão externa dos sentimentos e da consciência que emergem do mundo interior do corpo.

Neste sentido, a ausência de Ana Medeiros fez, da obra a que assistimos, uma outra obra. Que não perde a essência do butô, mas que não é mais a obra anunciada. “Mares e nuvens flutuantes” continua organizada a partir de uma trilha sonora que sugere o movimento das ondas e a passagem das nuvens. Mas enquanto solo, todo o espetáculo está mais adensado e comprimido num único corpo, o de Hiroshi Nishiyama: mudando os figurinos (de Etsuko Ohno e Rei Kawakubo) e cada coreografia, onde o grande painel esconde o bailarino e permite as trocas dos figurinos, Hiroshi Nikiyma interpreta cinco movimentos bastante diferentes entre si, inclusive pela trilha sonora criada por Casemiro Azevedo, culminando numa releitura inesperada e altamente criativa de “Bolero”, de Maurice Ravel, que, mais próxima da experiência do público, alcançou, evidentemente maior receptividade e resposta da plateia, com o que se encerrou o espetáculo.

Levando-se em conta que o butô não tem propriamente uma coreografia pré-programada, mas depende da inspiração momentânea do bailarino, a improvisação a que se viu obrigado Hiroshi Nishiyama não lhe deve ter sido tão frustrante. Foi apenas um desafio a mais, com o que o público saiu lucrando, porque assistiu a uma obra, de certo modo, inédita, mas que evidencia as características do butô enquanto espetáculo e enquanto filosofia.

* Crítica publicada originalmente no Jornal do Comércio